Postado 20 de fevereiro de 2026 em Viva!Verde por Andrea Benedetti

A ideia de que os gatos são mais apegados à casa do que aos seus tutores é bastante difundida entre as pessoas. Muitas delas acreditam que, diferente dos cães, os felinos se vinculam principalmente ao território e não desenvolvem laços afetivos profundos com os humanos. No entanto, estudos recentes sobre comportamento animal e observações etológicas mostram que essa percepção é simplista e, em grande parte, equivocada. O apego dos gatos envolve tanto o ambiente quanto as relações sociais, especialmente com seus responsáveis.
Os gatos são animais territorialistas por natureza. Na vida selvagem, o controle e o reconhecimento do território são fundamentais para a sobrevivência, garantindo acesso a alimento, abrigo e segurança. Esse traço permanece nos gatos domésticos, que veem a casa como um espaço previsível e seguro. Por isso que mudanças no ambiente, como uma mudança de residência, podem gerar estresse, o que reforça a ideia de que eles seriam mais ligados ao local do que às pessoas. Contudo, o fato de o território ser importante não exclui a capacidade de apego social.
Pesquisas em comportamento felino indicam que os gatos formam vínculos afetivos com seus tutores semelhantes aos laços de apego observados entre bebês humanos e seus cuidadores. Experimentos que analisam a reação dos gatos à ausência e ao retorno do tutor mostram que muitos demonstram sinais claros de conforto, segurança e bem-estar quando estão próximos da pessoa com quem convivem. Esses sinais podem incluir ronronar, esfregar o corpo, seguir o tutor pela casa e buscar contato físico, comportamentos que expressam afeto e confiança.
A diferença na forma como gatos e cães demonstram apego contribui para o mal-entendido. Cães tendem a ser mais expressivos e dependentes socialmente, exibindo alegria intensa e comportamentos claros de saudade. Já os gatos manifestam afeto de maneira mais sutil e individual. Alguns preferem apenas estar no mesmo ambiente que o tutor, sem necessidade de contato constante. Essa postura mais independente não significa ausência de vínculo, mas sim uma forma distinta de se relacionar.
Outro fator relevante é a rotina. Os gatos associam seus tutores a experiências positivas, como alimentação, brincadeiras, cuidado e proteção. Com o tempo, o tutor passa a fazer parte do “território emocional” do animal. Quando um gato demonstra ansiedade com a ausência do seu humano de referência, vocaliza excessivamente ou altera seu comportamento e isso pode ser interpretado como sinal de apego social, e não apenas dependência do espaço físico.
Além disso, há evidências de que gatos podem sofrer com a perda de seus tutores, apresentando mudanças no apetite, no sono e no comportamento geral. Esses sinais de luto reforçam que o vínculo estabelecido vai além da casa. Se o apego fosse exclusivamente territorial, a substituição do cuidador não causaria impacto emocional significativo, o que claramente não corresponde ao observado na prática.
Portanto, afirmar que os gatos são mais apegados à casa do que aos tutores é uma generalização que ignora a complexidade do comportamento felino. Os gatos valorizam o território por uma questão de segurança e previsibilidade, mas também constroem laços afetivos profundos com os humanos que fazem parte de sua rotina. O apego felino não é menor, apenas diferente: mais discreto, silencioso e, muitas vezes, incompreendido. Reconhecer essa particularidade é essencial para fortalecer a relação entre gatos e responsáveis, promovendo uma convivência mais respeitosa e afetiva.
Por Dra. Luciana Domingues de Oliveira, Médica Veterinária na Viva!Verde
